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  REPORTAGENS

Luiz Manzolillo fala do seu vai-vem Brasília-Estados Unidos
Heitor Andrade
Poeta e jornalista


O escritor carioca Luiz Manzolillo, 21 livros publicados no Brasil e exterior, consagrado com o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, com A Barca de Ceres, contos, integra agora a The Academy of American Poets, de Nova Yorque. A America House publicou recentemente The Eagle and the Tocororo. Escritor “multímodo”, como o rotula o poeta e crítico Anderson Braga Horta em Infinita Espiral (poesia), praticante de vários gêneros - conto, ensaio, novela e folhetim, além de romance e poesia -, Manzolillo já inicia novo thriller. Durante sua estada em Brasília, onde veio para negociar seus inéditos, no fim de 2002, concedeu a seguinte entrevista.

Sua biografia inclui títulos de impacto, como A Hora do Poder; O Brasil Socialista - Como Será?; A Chinese Dag-ger (O Sétimo Punhal Chinês); Pão de Barro; Futebol: Revolução ou Caos; The Angel and I (O Anjo e Eu), sai agora The Aegle and the Tocororo (A Água e o Tocororo). Como é esse romance?

É o drama de Fabian Della Torre, diplomata cubano na ONU - escritor, poeta, professor universitário, herói juvenil da Sierra Maestra. Contraditório, patriota católico, primo e protegido do premier Eduardo El Dardo, rompe com a mulher, Isla-Rosa, e apaixona-se pela pianista americana Brenda Ashley, sósia de sua paixão guerrilheira Sierranita, morta pelos soldados de Batista. Ao mesmo tempo, negocia o Singaplan, de Cinga-pura, para financiar o desenvolvimento cubano. O Caribe se torna o epicentro de uma possível terceira guerra mundial, instigada por um setor secreto da CIA. Fabian vem ao Brasil, sob nova ditadura militar, que ameaça reinstalar, a soldo da CIA, a Base Americana em Natal e atacar Havana. Choca-se com setores conservadores americanos e sofre três atentados. Mas não será ele um predestinado?
Fale-nos dos seus projetos literários atuais?

Já prontos, o romance Horizonte do Sonho (Oricabana), primeiro de uma trilogia; o didático O Soneto e a Arte da Poesia; a montar, a comédia Oh! Shirley...; os títulos publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos em português, espanhol e italiano; e tocar o novo romance.
Aliás, trabalhos para Hércules, considerando que temos, incluído o novo texto, nada menos de sete obras. Como operar essa montanha literária? De onde tira tanta energia?

É a sua hercúlea tarefa, Heitor, como meu agente literário, ao lado da americana Karen Carr. Encare a montanha: é muito serviço, reconheço, desafio para os ousados. Como já disse em entrevista ao poeta e crítico João Carlos Taveira, vou ao sabor dos anjos de inspiração; o combustível vem deles.

Na ocasião em que subia nos meios literários, após Chinese Dagger, na Miami Book Fair International-1990, e o Afonso Arinos, a surpresa: sua mudança em 1994 para os Estados Unidos. Qual a motivação? Ainda voltará para lá? Por que Nova Yorque?

Duas viagens em 1990, uma com o grupo da Thesaurus, de Victor Alegria: Viggiano, Asta-Rose, Bariani, Ligório, Taveira e eu. Antes, em turismo. A primeira tentativa fora aos 21 anos, ideal de trabalhar como técnico de basquete. Em 1994, aposentado no Banco Central, com a Luzia e nossas meninas Adria-na, Ana Paula e Giovana. Em sete anos, dois livros em inglês, The Angel e The Eagle, além de A Barca de Ceres e Pão de Barro, dos quais a LGE, de Antônio Navarro, já prepara novas edições. Agora, inicio o Christ, devendo fixar-me em Nova York por um bom período.

Do ponto de vista prático, isso tudo não constitui uma aventura quixotesca?

Mas viva os quixotes! O mundo precisa mais do idealismo do cavaleiro satírico de Cervantes do que do fisiologismo de políticos e tecnocratas. O homem é da altura do seu sonho! O Brasil que eu amo é o de Tiradentes e JK, Machado e Rachel, Lobato e Niskier, Vinicius e Amado, Érico e Rosa, Costa e Silva e Taveira, Albano e Anderson, Bilac e Drummond, Castro Alves e Cassiano, Braga e Cotrim.

Como é criar em inglês? A construção é diferente, o coloquial ainda mais. Quais os autores em inglês de sua preferência?

Prática de ler e escrever literatura, basquete, Banco Central. Cinema e teatro ajudam. Mas é mais fácil do que nas neolatinas, devido à estrutura sintética. Entre outros, destacaria Hemingway, Pöe, Conroy, Pearl Buck, Arthur Miller, Maugham, Mailer, Morrison, Salinger e, óbvio, Shakespeare.

Como é o mercado americano? Dá para chegarmos perto?

Gigantesco o literary mar-ket. Somados o comercial e o escolar (este com livros gratuitos), chega-se perto de US$ 30 bilhões. Chamo-o de fantástica fábrica de letras. Menor é a soma da renda de cinema, teatro e basquete. Edita-se até o inimaginável. A qualidade vem da quantidade. Chegaríamos perto a depender de dois fatores: educação e renda, embora em Cuba, a despeito da baixa renda, o povo leia aos montes, há muitas décadas.

Suas obras se revestem certo cunho político. Como vê o atual quadro brasileiro?

Desviam-se dois itens importantes, dado o recessionismo do FMI: distribuição de renda e educação para a cultura. A aviltante renda de US$ 60 ao mês castra o consumo, milhões não vão ao mercado. Discurso do “exportacionismo” que povoa candidatos e mandatários: se almejamos o clube dos ricos, há que excitar o mercado interno. Os Estados Unidos só exportam 15% da sua produção. Nossa baixa renda é a vil e silenciosa submissãoà globaliza-ção e ao Estado voraz por impostos. O brasileiro, voltado para a música, letras, ciências, é tolhido pelo sistema, que obscurece a cultura como produto que, no Primeiro Mundo, é uma fartura. Aqui, muitos autores e compositores não saem das gavetas. É a cultura, não a economia ou o militarismo, a mola do poder dos países ricos. Quando entendermos isso, daremos o grande salto e, fácil, fácil, seremos a quarta potência mundial, logo após Estados Unidos, Japão e Alemanha. Repito: os políticos sem coragem buscam anularem-se uns aos outros, mas falta um inovador, um visionário como JK.
Pretende lançar The Eagle no Brasil, como fez no eixo Miami-Brasília com The Angel?

Positivo. Mas continuo buscando editor para os vários inéditos e os traduzidos do inglês, uma pedreira no nosso ainda axíguo mercado editorial. Mas, pelos primeiros contatos que você estabeleceu, são boas as perspectivas.

Na prosa de ficção em português quais as melhores obras, no seu entendimento?

Qualidade nos sobra. Como em Memórias Póstumas de Braz Cubas e Dom Casmurro (Machado), O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio (Eça), O Tempo e o Vento (Érico), Fronteira Agreste (Ivan Pedro), Pessach: a Travessia (Cony), Memorial de Maria Moura (Rachel), Urucuia (Valadares), Saramin-da (Sarney), Lisábria (Rosa), Memórias de Morte (Leitão), Vidas Secas (Graciliano), Saliva do Verde (Miketen), A Estrela Sobe (Marques Rebelo), O Labirinto de Espelhos (Montello), Sargento Getúlio (Ubaldo), Jazigo dos Vivos (Geraldo França), Ciranda de Pedra (Lygia), Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto), Urupês (Lobato). São mais de vinte. Outros tantos haveria.


Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
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