| Linguagem
e pensamento
Rey Vinas
O pensamento humano se organiza, articula-se e ganha nitidez
à medida que o indivíduo exercita a linguagem.
Quanto mais nos esforçamos para exprimir nossas idéias
de modo claro, mais alcançamos essa virtude rara na
comunicação. Isso nos leva a admitir que a escrita
pode ser aprimorada ao longo do tempo. Não há
a menor dúvida quanto a isso. Uma criança, logo
que consegue utilizar a linguagem dos adultos e deixa para
trás as expressões desconexas e fragmentadas
e o balbucio de seus primeiros anos, consegue um desenvolvimento
espetacular de raciocínio que transforma o seu modo
de estar no mundo: ganha autoconfiança e se reconhece
possuidora de um alto grau de convencimento. À medida
que aperfeiçoa a linguagem, aprimora o modo de pensar,
porque o desenvolvimento da linguagem permite a organização
do pensamento e a exteriorização deste em toda
a sua complexidade.
Disso deduzimos que a boa linguagem é
aquela que: 1) expressa adequadamente um assunto pensado;
2) possui características que levam à total
atenção ao que está sendo comunicado
(porque nos seduz e nos convence); e 3) respeita um padrão
lingüístico admitido coletivamente como ideal
(a correção gramatical).
A organização das idéias
Diz o poeta francês Boileau que aquilo que é
bem concebido se enuncia com clareza (Ars poétique,
I, p. 153), o que nos leva à importância da reflexão
como pré-requisito para a expressão.
É necessário pensar detidamente sobre um assunto,
uma idéia, antes de expressá-la. Ao refletir
sobre a massa disforme e confusa que é a origem do
pensamento, vai-se aos poucos dando a ele ordem e corporificação
e, ato contínuo, um comando interno passa a tentar
encontrar as palavras exatas que servirão para dizê-lo.
É impressionante como raramente fazemos isso em nossa
vida diária. O que dizemos normalmente nos sai por
impulso, após um mínimo de reflexão.
O mestre J. Mattoso Câmara Jr. ensina em seu Manual
de expressão oral e escrita (2. ed. J. Ozon, 1966.
p. 10):
“A precisão lógica da exposição
lingüística importa, antes de tudo, no problema
da composição, que consiste em ajustar e concatenar
os pensamentos. O próprio raciocínio ainda não
exteriorizado depende disso para desenvolver-se.
Antes de nos fazermos entender pelos outros, temos de nos
entender a nós mesmos (...)”.
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