| Júlio
Ribeiro, virtuose do engodo
Andrey do Amaral
Escritor
Nascido em Sabará, Minas Gerais, em 10 de abril de
1845, Júlio César Ribeiro Vaughan era filho
da professora brasileira Maria Francisca Ribeiro com um norte-americano
boêmio-circense George Washington Vaughan, de Virgínia,
que abandonara a esposa e o filho. Orgulhoso, passou, por
opção, a assinar apenas o nome da mãe:
Júlio Ribeiro, como é conhecido nos meios jornalístico
e literário. Estudou num colégio interno em
Beapendi, Minas Gerais. Ao terminar os estudos, segue, aos
17 anos, para o Rio de Janeiro, a fim de ingressar na Escola
Militar. Três anos depois, abandona a idéia de
seguir o militarismo. Vai para São Paulo, dedicando-se
ao magistério, onde passa a lecionar Latim na Faculdade
de Direito e Retórica no Instituto de Educação
Secundária. Presenciou momentos importantes da História
do Brasil, como a Proclamação da República
e a Abolição da Escravatura. Tornou-se excelente
jornalista e gramático respeitado. Publicou seus dois
romances, Padre Belchior de Pontes (1876/7) e A carne (1888),
inicialmente nos jornais em que trabalhava, como folhetim.
Por causa deles, recebeu muitas críticas pelas idéias
extremamente radicais e vanguardistas, contidas no desenrolar
das tramas.
Onze anos depois de publicar o romance Padre Belchior de Pontes,
Júlio Ribeiro ganha maior notorie-dade com o polêmico
A carne, de 1888. Porém, essa fama trouxe a ele demérito
em vez de encômios. Isso deu-se pelas trajetórias
críticas e denúncias contundentes com que Júlio
Ribeiro desenvolvera sua narrativa: o bacharelismo conserva-dor,
o atraso da vida rural, os maus tratos aos escravos, a impunidade,
os preconceitos racial e social, o casamento, divórcio,
o amor livre. Entretanto, todas essas marcas de Júlio
Ribeiro foram pouco notadas, ou nem o foram pelos críticos.
Preferiam observar o lado erótico do romance.
Com uma personagem diferente, ativa com intensos desejos sexuais,
nosso romancista foi alvo de infinitas ofensas e injúrias.
Por causa de uma mulher “perigosa”, quiçá
as outras denúncias de Júlio Ribeiro ficassem
despercebidas ou os críticos não as queriam
ver. A personagem principal Helena Matoso, mais conhecida
pela alcunha de Lenita, sente fortes concupiscências.
Para muitos críti-cos, esse intenso desejo, provocado
pela carne, será considerado um “histerismo”,
qualidade que advém de Magdá, a histérica
personagem do romance de Aluísio Azevedo: O homem (1887).
Muitos estudos tecem essa semelhança devido à
irritabilidade ou ao nervosismo exces-sivo causado pela força
da carne - do desejo sexual - em ambas. Para Magdá,
seria certa a tese da histeria. Para Lenita, não.
Seu último romance, ou melhor, a personagem Lenita
chocou a sociedade do final do século XIX, causando-lhe
incômodo, que ainda via a mulher como ser passivo, devendo
ser sempre inferior aos homens. A carne recebeu vários
predicativos à época, a maioria depreciativos,
por causa de cenas lúbricas. Ademais, o espanto se
deu não só por causa do erotismo da trama, mas
também por causa de uma mulher independente, rica e
inteligente - mesmo que estivesse atrás da máscara
do sexo apresenta-do no romance, sendo difícil sua
aceitação para o mundo de então. Essa
mulher de vanguarda foi vista pela miopia enferma da sociedade
cujas dimensões ultrapassavam o natural, e esta, querendo
perenizar conceitos e tabus ultrapassados, deixou que os momentos
eróticos e exóticos fossem o único ponto
máximo do romance, encobrindo a importância da
heroína ao contexto social brasileiro e mundial. A
cegueira da sociedade foi contaminada pelo tom “obsceno”
do livro, e o mais importante foi esquecido: o surgi-mento
de uma mulher independente, em todos os sentidos, mesmo que
seja em romances.
O livro era dissidente e, por isso, obteve alguns poucos panegíricos
e muitas depreciações. Não houve parcimônia
a Júlio Ribeiro. Ele foi um escritor que causou uma
espécie de cissiparidade nos leitores: ao mesmo tempo
em que desdenhavam o romance, liam-no em solipsismo. Todavia,
mais tardar, as críticas de tom exageradamente leviano
tão-somente ajudariam a promover a obra, pois, através
dos julgamentos ferinos, A carne foi ganhando mais e mais
popularidade. Se não pelo seu “valor literário”,
como julgavam e ainda julgam, pelo menos, pela polêmica
que causou a obra, introduzindo aos leitores, mesmo sendo
com suaves matizes, ideais progressistas que tanto defendia
Júlio Ribeiro: modernização do Brasil,
abolição da escravatura, a República,
entre outros. Assim, até mesmo aqueles que repudiavam
a obra, liam-na às escondidas, intencionando descobrir
o proibido, querendo ter acesso ao que, socialmente, não
era permitido.
Se havia realmente deficiências, seu inimigo número
um, o padre Senna Freitas, procurava sedento os “defeitos”
da obra. O padre publicara vários artigos, intitulados
de “A carniça”, fazendo um trocadilho com
o título original do livro. No primeiro artigo da série,
o padre Senna Freitas avisava aos leitores e ao “estômago
público contra essa venda ilícita de carne pútrida,
exibida a 3$000 a posta, nos açougues literários
de São Paulo”. Júlio Ribeiro, com maestria
irônica, declarara “guerra” ao padre, a
quem chamava de “o clown litúrgico, o palhaço
de batina”, e também, numa série de artigos
intitulados “O urubu Senna Freitas”, afirmou com
precisão de aticismo: “Não lhe vou responder
às críticas, vou simplesmente aguarentar-lhe
a protérvia”. Com tantos artigos ofensivos, o
“urubu”, recluso em seu gabinete, certamente deliciava-se
com as carnes de “A carniça”, sempre procurando
as “incoerên-cias” do romance, a fim de
publicá-las nos periódicos.
Júlio Ribeiro conseguiu pouco prestígio e bastante
demérito com seu segundo romance. Todavia, não
caiu no olvidamento como queriam. Foram sucessivas edições.
O povo o aceitou, embora às escuras. Quiçá,
hoje, A carne não cause tanta estranheza como causara
no momento de sua publicação e em algumas décadas
seguintes. Com a chegada de um novo século, as questões
relativas ao sexo não chocam como chocaram tempos atrás.
Os que julgam o romance de pornográfico, no sentido
pejorativo da palavra, cometem equívocos, pois as passagens
nas quais as persona-gens se envolvem em cópula são
descritas e narradas à guisa poética.
Seguindo à risca a escola de Émile Zola, Júlio
Ribeiro acentua o sexo em A carne. Alfredo Bosi, em sua História
Concisa da Literatura Brasileira, afirma que, mesmo estando
A carne, juntamente com os romances O homem e O livro de uma
sogra, de Aluísio Azevedo, presa às grades do
naturalismo, o romance dá margem a “desvios melodramáticos
ou distorções psicológicas grossei-ras”,
como o suicídio de Manduca, por exemplo. Talvez isso
tenha prejudicado a solidez de A carne. Bosi completa que
“a obra de Aluísio (com exceção
do Cortiço), a de Inglês de Sousa, a de Adolfo
Caminha e a de Júlio Ribeiro caíram sob o peso
de esquemas preconcebidos, pouco vindo a salvar-se do ponto
de vista ficcional”. Por fim, Bosi diz que A carne e
O cromo, de Horácio de Carvalho, “são
meros apêndices do naturalismo”.
José Veríssimo, em sua História da literatura
brasileira, diz que A carne está “nos mais apertados
moldes do zolismo, e cujo título só por si indica
a feição voluntária e escandalosamente
obscena do romance”. Todavia Veríssimo é
contraditório em sua opinião: “Mas A carne
vinha ao cabo confirmar a incapacidade do distinto gramático
para obras de imaginação, já provada
em Padre Belchior de Pontes. É, como dela escrevi em
1889, ainda vivo o autor, o parto monstruoso de um cérebro
artisticamente enfer-mo. Mas ainda no nosso mofino naturalismo
sectário, um livro que merece ser lembrado e que, com
todos os seus defeitos, segura-mente revela talento”.
Tantas acusações não foram suficientes
para determinar o valor da obra. É provável
que o gosto pessoal dos críticos por histórias
diferentes do enredo e do desenrolar de A carne muitas vezes
fizeram com que a obra recebesse uma crítica infundada,
sendo que (ao que se percebe) até hoje muitas críticas
são repetidas em conteúdo, tendo pouca ou quase
nenhuma variação.
O sexo, no texto, encontra nuanças diversas; não
só ocorre com o contato carnal de duas pessoas. Provavelmente
a intensidade dos instintos das personagens, condi-cionada
pelas circunstâncias apre-sentadas durante a narrativa,
tenha prejudicado a aprovação da obra, pois
as exageradas características naturalistas formaram
um óbice para que a obra obtivesse um destaque especial,
no sentido qualitativo, em nossas letras. Na verdade, a desaprovação
de A carne veio pelo medo de que surgissem novas Lenitas.
Críticas depreciativas à parte, A carne foi
bastante divulgado pelo cunho sexual. Há, é
certo, algumas passagens desconexas, como o laboratório
que o casal montou na fazenda, o que, entretanto, poderia
ser possível, mas é estranho. Algumas descrições
exageradas, que tornam a narrativa enfadonha, como a missiva
de Barbosa para Lenita e vice-versa, por exemplo. Apesar das
“irregularidades”, A carne prende o leitor à
narrativa através das atitudes e dos pensamentos das
personagens principais: Helena Matoso e Manuel Barbosa.
Se o romance não é tão louvável,
como determinaram os críticos, pelo menos a intenção
de Júlio Ribeiro foi precisa. Criticou com veemência
o casamento e explorou o sexo sob diversas maneiras: os pensamentos
lascivos dos protagonistas, o coito dos animais, o voyeurismo,
a relação proibida dos amantes Helena e Barbosa...
A carne só não é uma obra-prima porque
Lenita é um perigo à sociedade patriarcal, por
isso alegaram que o livro era obsceno, pornográfico
e sem qualidades literárias.
Romance profano? Talvez, sim. Porém, antes de tudo,
uma narrativa a qual foi contundente em relação
à sociedade que não estava pronta para receber
A carne, em 1888. Júlio Ribeiro quis, de certa forma,
antecipar as questões que envolvem o ser humano, como
o sexo. Não foi feliz. O que estamos conseguindo agora
ele queria adiantar-se e expor tais questões à
transição do século XIX para o XX. Em
Santos, São Paulo, dois anos depois de sua obra polêmica,
Júlio Ribeiro morre em primeiro de novembro de 1890.
Todavia seu espírito vanguadista ficou e A carne também.
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