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  REPORTAGENS

O novo livro de Ronaldo Cagiano
Whisner Fraga
Autor de Inventário do desassossego


Baratas esmagadas, vírgula iniciando conto, Clarice. Kafka, José J. Veiga. Eu ainda o vi atravessando o pontilhão até diminuir, diminuir, e não ser mais que uma noite longa crescendo dentro de mim. Falar de escuridões intermináveis, desespe-ranças, solidão, tormentos. E é Cataguases, Brasília, lugar nenhum. Criaturas estioladas, tempo desbo-tado, poesia mesmo em prosa. Complicado ler Ronaldo Cagiano. E porque tradicional, não há uma frase que fuja à influência dos clássicos. E isso não quer dizer cópia. E Dezembro indigesto (Secretaria de Cultura do Distrito Federal; Brasília; 2002; contos; 242 páginas), seu novo livro, está ao lado de boa gente.



Uma certa predileção por palavras rebuscadas, o que às vezes dá um tom de pedantismo, mas pura impressão, o leitor deve seguir em frente, até o fim, perto de legiões enigmáticas, presenciando estupros, e quase sempre é isso, climas psicológicos, personagens tragados pela fragilidade do próprio mundo e desassossego. Não é um livro fácil, principalmente para nós, acostu-mados à literatura óbvia, de palavras cruas, violência, explicações prontas.

E medo.

Ronaldo é poeta, mas esse seu novo livro não é somente uma aventura pela prosa, de jeito nenhum. O autor já escreve contos há muito; premiado. Inclusive Dezembro indigesto foi laureado pela Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal em 2001. O que não é pouco. Falem aí que prêmio não quer dizer nada, que isso, que aquilo: despeito.

Até onde inovação é um critério de qualidade? Aliás, calhamaços sobre o que seria uma boa obra e má aquela que não se enquadra nessas regrinhas? Remando contra a moda, isso é quase sempre se frustrar, não dá mais para ler Machado de Assis, é bonito num boteco ficar citando Dom Casmurro e coisa e tal, mas Guimarães Rosa? Lindinho entre um gole e outro, boca cheia de tira-gosto, ruminar uma Clarice ou alucinações em teses de doutorado. Um livro ou outro isso. E eu recomendo Dezembro, sei, não é uma antologia para qualquer um, estou por dentro.

A sociedade expulsa aquilo que não pode assimilar - Octávio Paz. Em literatura significa panelinhas, cultura de massas, pizza. No duro, falta de qualidade. A mídia passando a mão, o leitor vai sendo formado em porcarias. Mal-informado. E medo novamente. Como no conto Espectro dissonante, já apresentado antes em Araraquara, para o Ignácio Loyola e tudo o mais, se é que isso quer dizer alguma coisa. Não há uma história, antes um círculo, traçado pela angústia e em torno do qual uma corrida infernal em busca de alcançar-se. Ou seja, inútil. Não é para quem quer finais felizes e tramas de Hollywood. Aliás, não tem nada a ver com cinema, ao contrário da literatura brasileira contemporânea, que acabou virando comércio. E arte é assunto difícil de ser negociado.

Ronaldo deveria ser mais lido. Contos como Destino e O rosto perdido podem figurar em qualquer roda de leitura que se preze. Poucas se prestam a tanto. Nada de velhos em chapadões ou de passados (e amores) perdidos. É démodé, é feio. E não adianta ficar enchendo lingüiça, páginas para convencer leitores que Cagiano é indispensável, etcétera, etcétera. É isso e ponto final.


Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
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