Ray Cunha
Rosas para a madrugada
O maior poeta do estado do Amapá, Isnard Brandão
Lima Filho, morreu em 11 de julho. No Centro-Oeste, isso não
significa nada, porque a Amazônia é apenas um dos
muitos Brasis e, aqui, nada se sabe daquela região brasileira.
Porém Isnard Lima Filho foi um gênio. Se os governantes
do Amapá soubessem valorizar os artistas amapa-enses,
aquele estado amazônico teria, hoje, mercado livreiro,
pictórico, musical, teatral e cinematográfico,
e escritores como Isnard Lima Filho seriam lidos amplamente,
no Brasil, na América ibérica, em Portugal, na
Espanha e na França, pois a Guiana Francesa, que faz
fronteira com o Amapá, mantém intenso diálogo
com os amapaenses.
Morreu Isnard Lima Filho. Agora é com José Edson
dos Santos, poeta amapaense que vive em Brasília; é
com o ficcionista Fernan-do Canto; é com o pintor Olivar
Cunha e muitos outros artistas amapaenses, luzes cintilantes
na noite que se fez em Macapá.
Na minha memória, úmida de lágrimas, vejo
o poeta em sua casa na Rua Mário Cruz, onde vivia com
a mãe, a pianista Walkíria Ferreira Netto de Lima.
Pálido, de testa larga, olhos penetrantes como estilete,
era lá que o poeta dava início à liturgia
da noite, ofertando rosas para a madrugada.
Recebe, irmão, poeta querido, estes versos, escritos
por ti. Rosas para a madrugada, e lágrimas saudosas,
minhas.
A casa onde escondo as minhas ilusões
está um pouco diferente
Rasguei os bruxos chineses
das estantes
Nem existem lágrimas
para limpar
a poeira
que deixei nas esquinas
Sobrou um disco chorão
rindo de mim
em cordas de violino
E o meu Stradivarius, senhores,
morreu
numa esquina
romana.
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