Setembro de 2002. Número 4. Ano 1. Brasília, Distrito Federal, Brasil
 
 
 
 
 

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CAFÉ DOCE CAFÉ

Ray Cunha

Rosas para a madrugada


O maior poeta do estado do Amapá, Isnard Brandão Lima Filho, morreu em 11 de julho. No Centro-Oeste, isso não significa nada, porque a Amazônia é apenas um dos muitos Brasis e, aqui, nada se sabe daquela região brasileira. Porém Isnard Lima Filho foi um gênio. Se os governantes do Amapá soubessem valorizar os artistas amapa-enses, aquele estado amazônico teria, hoje, mercado livreiro, pictórico, musical, teatral e cinematográfico, e escritores como Isnard Lima Filho seriam lidos amplamente, no Brasil, na América ibérica, em Portugal, na Espanha e na França, pois a Guiana Francesa, que faz fronteira com o Amapá, mantém intenso diálogo com os amapaenses.

Morreu Isnard Lima Filho. Agora é com José Edson dos Santos, poeta amapaense que vive em Brasília; é com o ficcionista Fernan-do Canto; é com o pintor Olivar Cunha e muitos outros artistas amapaenses, luzes cintilantes na noite que se fez em Macapá.

Na minha memória, úmida de lágrimas, vejo o poeta em sua casa na Rua Mário Cruz, onde vivia com a mãe, a pianista Walkíria Ferreira Netto de Lima. Pálido, de testa larga, olhos penetrantes como estilete, era lá que o poeta dava início à liturgia da noite, ofertando rosas para a madrugada.

Recebe, irmão, poeta querido, estes versos, escritos por ti. Rosas para a madrugada, e lágrimas saudosas, minhas.

A casa onde escondo as minhas ilusões
está um pouco diferente
Rasguei os bruxos chineses
das estantes
Nem existem lágrimas
para limpar
a poeira
que deixei nas esquinas
Sobrou um disco chorão
rindo de mim
em cordas de violino
E o meu Stradivarius, senhores,
morreu
numa esquina
romana.



Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone a (61)9618-3160. E-mail: bsbliteraria@uol.com.br
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