CRÔNICAS

Cotidiano da juventude classe média urbana



- Sexo pra mim só com amor, Penélope! Já não te disse?
- Como assim? Sexo não tem nada a ver com amor, Luíza!

Penélope e Luíza eram daquelas amigas que não desgrudavam nem pra ir ao banheiro. Mas discorda-vam em alguns pontos. E, como já deu para perceber, sexo era um deles.
- Você está saindo há quase cinco meses com o gostoso do Vicente e tem a cara-de-pau de me dizer que ainda não rolou nada? Você tem noção de quantas meninas adorariam estar no seu lugar?
- Claro. Todas aquelas aluninhas dele.
- Então, mulher? Quer que alguém pape o Vicente antes, é?
- Que horror, Penélope! Baixaria!

Vicente era diretor de teatro amador. Seus cursos chamavam mais atenção por seu abdômen definido que por seu currículo. Inscrições anunciadas, sinônimo de filas na porta da Casa do Ator, onde ele dava aulas. Desneces-sário dizer que eram cinco homens e quarenta e sete meninas.
- Eu não consigo, Pê! E se ele me der um pé na bunda logo depois que rolar?
- Se tiver sido a pior trepada do século, vai ser um alívio. Se for a melhor da sua vida, sua reação não vai ser boa, claro. Mas, cá entre nós, tem grande chance de ser muito sem gracinha, né? Pelo menos, você vai ter sentido prazer, Luíza! E, na pior das hipóteses, você vai ter dado prazer, cara! Nada comparável a um orgasmo, é verdade, mas também tem seu lado bom. Não é só homem que gosta de sexo, Lu! A gente também tem desejo, caramba. Por que mulher quando gosta de transar é vadia e homem que pensa em sexo é espada, poderoso, machão mesmo? Se o Vicente te der um pé na bunda, tendo ou não transado com você, ele é um babaca, porque você é linda demais, gostosa demais e não se acha uma Luíza na esquina a toda hora. Quem vai sair perdendo é ele!

É bem verdade que Luíza não era tão linda e gostosa assim. Mas Penélope queria vê-la sem aquela nuvenzinha preta sobre a cabeça, precisava arrancar-lhe um sorriso. Além do mais, achava um absurdo um ser humano passar noites sem dormir pensando se transa ou não com outro ser humano.
- Por que para você é tão simples? Por que eu penso sempre que todo homem que se aproxima de mim só quer saber de sexo? Eu só consigo fazer amor! Amor!
- Calma, calma, não exagera, vai! Não tô falando que a minha opinião é certa, mas acho que é menos sofrida. Você sofre por antecedên-cia pensando em um monte de bobagens. E sobre fazer amor, cara, desculpe, mas não acredito. Aquele momento em que um homem e uma mulher se esfregam loucamente, gemem, suam, mordem, arranham e lambem não pode se chamar amor. É a nossa parte animal e animais não fazem amor, copulam. Claro que é sensacional transar com quem a gente ama, mas, mesmo assim, não é fazer amor, se é que você me entende... Bem, é o que eu acho, madame Certinha.

Tudo era problema para Luíza, desde ir ao Maracanã até fritar um ovo. E fazia Psicologia, vê se pode! Parece brincadeira, mas seu sonho era resolver os problemas dos outros. Depois que passou para a faculdade começou a ter acessos de vergonha ao se imaginar anali-sando alguém no divã. Por isso foi fazer teatro. Para perder a timidez. Uma analista não podia ter vergonha de nada. Afinal, dentro de quatro anos ela iria saber os segredos mais escabrosos de um bando de gente e não poderia ruborizar ao ouvi-los.

Os pais não davam muita força ao curso de teatro. Achavam um meio de promíscuos e drogados, não queriam ver a filha educada em colégio de freiras indo para o mau caminho. Então conheceram Penélope.

Piorou a situação.

- Essa menina deve levar pra cama quem ela bem entender. Onde já se viu morar sozinha com 22 anos?
- Foram as circunstâncias, já te expliquei. A Penélope não se adaptou no Recife, senão estaria morando com a mãe até hoje. Por isso ela mora sozinha, a mãe vai bancar seu apartamento enquanto ela estiver na faculdade. E ela não leva todo homem pra cama, mãe! Além do mais, peraí! Em que ano você está vivendo? Pessoas não precisam casar para sair de casa!!! Ela é muito minha amiga e eu não admito que você fale assim dela!
- Não admite! Que audácia! Bom, minha filha, há um sábio ditado que diz: “Diga-me com quem andas que te direi quem és”. Quando come-çarem a te chamar de piranha não vai dizer que não te avisei.
Piranha é ótimo! Ela não conhe-cia mesmo a filha.

Trecho extraído do conto Traição entre amigas, de Thalita Rebouças; Editora ao Livro Técnico; Rio de Janeiro; 2000;
78 páginas


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