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À espera dos trovões
Whisner Fraga
Escritor, autor de Coreografia dos danados
Há algo nos justos que os faz temerem a condição
humana e, mais do que predileção, admiro os
autores que enobrecem a própria raça expondo
o que de mais atroz existe nela. E Salomão Souza disseca
sentimentos em seu Estoque de relâmpagos. Já
os laços do amor atacam/por todos os flancos/deixando
apenas o esmo cheiro de fezes. Entretanto, é próprio
dos que descobrem nossa decrepitude, temessem uma punição,
repre-sentarem um bocado de espe-rança, Ainda que o
mar seja uma rocha/e no deserto o coração vá
navegar/ Ainda assim o faroleiro acen-derá.
E não é de se estranhar que o autor não
utilize nenhuma pontuação. Vírgula, ponto?
Nada. Tal atitude, a meu ver, vai além da ousadia lingüística
(que por si só justificaria a opção),
tendo raízes mais intrincadas, é que Salomão
nos apresenta apenas um de seus depósitos, que não
tem início nem fim e, apesar de muito provável
tenhamos mais adiante uma outra carga, o que não importa,
o poeta quer que visualizemos apenas esse clarão, estivésse-mos
numa desolada cegueira e precisássemos desse rasgo
de luz para enxergarmos a possi-bilidade de uma verdade.
Quando surgir o lampejo que nos fará, quem sabe?, mais
cientes de nosso estado, Todos sentados no baldrame/à
espera de quem desleitere/os úberes dos gritos. É
urgente a desco-berta e por isso o tempo presen-te em todo
o livro, mal damos um passo rumo à outra frase e o
encontramos, em sua vigília tácita e ímpia:
Estou repetindo com a sede da ampulheta; Para atraso de qualquer
prazer; O tempo dura apenas/enquanto a lagarta tece e poderia
citar muitos outros casos. E não é um dos grandes
desejos do homem domar um relâmpago? Usar essa efemerida-de
em seu favor?
E nos importa de que material esta luminosidade? De sóis:
Ressequido fervor de sol/e outros ainda dirão que é
grito. É uma lua/que vem tarde para a rua. De fogos:
Ardência de fogo nas carnes/e dirão que é
podre a lenha do grito. Importa de onde vem a ajuda? Salomão
Sousa nos ensina que não. Ainda assim é o amor
à justiça, não é desse antagonismo
que é feito o bem e o mal?, Quem escolhei o Mal/ escolheu
mal. E também não tem o relâmpago e toda
a natureza do que é mais forte uma aura de divino?
É só essa força que pode Impedir a tempestade/para
não ser a lasca/o batente arrancado/de uma porta. A
própria dualidade do homem, a chuva ao mesmo tempo
ajuda e desgraça.
Livro que mereceu o prêmio Bolsa Brasília de
Produção Literária 2001. Conheci dois
premiados até agora, os contos reunidos em Dezembro
Indiges-to, de Ronaldo Cagiano, e estas poesias de Salomão
Sousa. Que falta faz um selo para lançar para o resto
do país essas duas obras!
E o homem é forte em sua capacidade de resistir, adaptar.
Assim o poeta termina seu livro: Estarão
sólidos os nossos punhos/e não adianta as algemas
descerem/com a rota euforia de suas sarjetas/ Desastre algum
nos tingirá de lama.
De repente
Rui Rasquilho
A luz desliza agora
Sobre a duna
Retirando ao teu corpo
O relevo da sombra
Diluindo o teu seio
Na claridade da manhã
As mãos arredondam então
A coxa
Modelam a luz
E a forma
Inquietam o reflexo nocturno
Nos teus olhos
De repente
Um relâmpago
No curso das águas
Do livro Os perfis do silêncio
Thesaurus Editora
Brasília, 2002
90 páginas
A mulher dos meus sonhos
Heitor Humberto de Andrade
Tem a silhueta de uma palmeira
que fica em frente à janela
do Acalanto
Seus olhos são sagazes
como pequenos peixes
no aquário
Ela se veste
com a elegância
do vento sobre a relva
a mulher dos meus sonhos
sorri com a alegria
dos córregos sobre a terra
Ela tem a doçura
do néctar
entre as flores
Eu sou incapaz de dizer
como realmente ela é:
sinto a mulher dos meus sonhos
Do livro Caliandra - Poesia
em Brasília
André Quicé Editor
Brasília, 1995
223 páginas
Mamãe
Ray Cunha
Se me deixas gritar
Terei os pulmões satisfeitos.
Se me deixas correr, livre, pelos campos
Serei eternamente grato.
Se me permites conversar em voz alta
Os assuntos que me agradam
Serei filho forte e não terei medo.
Se não te importas eu escrever verdades
Então pronto, serei esplêndido. |