CRÔNICAS

Violeta
Áureo Mello
Escritor


- Porque violeta é a cor dos funerais dos elfos...
Quando o elfo morreu, na noite enluarada, houve longos gemidos dos ciprestes e soluçante farfalhar dos cinamomos. Os vôos aveludados dos morcegos eram os gestos dos gênios maus das grutas, também chorando como as fontes transparentes.



A campina das hásteas cantantes estava estranhamente opalesci-da, sob o beijo da síncope lunar. E os pirilampos, cirandando mil livores, coroavam, em diadema refulgente, o corpo branco do elfo que morrera.

As violetas do prado e as madressilvas, os lírios e as begônias que se enleiam estremeciam ao favônio gélido. E o corpo branco do elfo que morrera, ao palor fragranciado dos perfumes, sorria a candidez dos sonhos níveos.

Então, todos os elfos dos rosais, na poeira de ouro das suas vestes, vieram dançar a mágoa e a nostalgia. E o bailado gazil era tão leve que parecia pétalas caindo sobre estendal de pétalas caídas.

Depois, cessaram todos os gemidos, morreram todos os soluços, todos os gestos se calaram. E sob a luz dos ágeis pirilampos, a rainha dos elfos proferiu a sonora canção da despedida. A diamantina voz, galgando as brisas, percorreu as distâncias.

Foi orvalho de prata nos pinheiros; foi brusco estremecer de água parada; foi gemido de dor para a ave infante. E era tão triste aquela voz tão doce que as violetas sensíveis da campina, que rodeavam o corpo branco do elfo, curvaram as suas pétalas fragrantes e morreram também, de emocionadas.

E, de então para cá, são as violetas que recobrem os brancos elfos mortos, quando há síncopes súbitas na luta e há orvalho de prata nos pinheiros...

- Ó mulher dos olhares orientais! Quando eu te enviar um ramo de violetas não mais relembres nosso amor. Não mais relembres nosso amor, porque violeta é a cor dos funerais dos elfos...


Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
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