POESIAS


Rio da infância
Romeu Jobim

Quis ver de novo o rio
que me banhou na infância
e a nadar me ensinou.

Olho bem suas águas.
Toco-as. Nelas penetro.
Não nos reconhecemos.

O pior, contudo, é que este,
certeza, é mesmo o rio
de meus tempos de criança.

Que ambos perdemos? A alma?
Ele no mar? na terra?
E eu? Oh! que fiz da minha?

Adeus, corrente estranha!
Ainda que seques, falta
a mim não me farás.

O rio que em teu leito
corria, corre agora
em mim. E isto me basta.


Maldição
Renato Riella/1978
rriella@bol.com.br

Malditos aqueles
que trouxerem flores ao meu enterro.
Puxarei seus pés em noites tenebrosas
e assustarei os castelos das suas vacilações
arrastando horripilantes correntes.

Malditos aqueles
que incomodarem o meu relax eterno
com o apodrecer de flores protocolares.
Virei pairar sobre suas recordações
e trarei comigo bilhões de fantasmas,
que não receberam nem flores de urtiga
nas suas campas de beira de estrada,
cavadas à mão,
sem choro nem caixão.

Malditos para sempre
todos os que derramarem
lágrimas convencionais por mim.


Mary Sayonara Blue
José Edson dos Santos

Uma japonesa tomando vodca com cereja
Sentou em minha mesa e falou um hai-kai
Como bom rapaz entendi o salto da rã
flauteei a flauta de Pã para o sol nascer
Seus olhos amendoados eram ilhas de morrer
cabelos curtos mostrando orelhas brancas
translúcidas como a manhã
Não sei se a disponibilidade das ancas
seios do tamanho de uma laranja madura
quem manja o silêncio sabe ser samurai
Fiquei bebendo hi-fi como se fosse um fausto
Ela sumiu de repente dentro da noite-ameixa
como gueixa louvando meu holocausto
Pensei um hara-kiri sem queixas
no teatro nô das horas
Aurora surgindo por entre bambus
quando sansei ela ia embora
Sayonara Sayonara Sayonara
Saí de tangente e fiquei de cara
tristemente restou um azul de quem deseja
repetir o gole de vodca com cereja
em sendas que me oriente ao oriente
do sacrifício do vício platônico
Desfalecer inocente entre abraços
dos braços de Mary Sayonara Blue


Verde-Ervilha
Antônio Temóteo dos Anjos Sobrinho
À querida amiga Áurea Ervilha, com carinho

Você, mulher em combustão, u’a pilha,
é lava incandescente que se inflama,
é brasa que se queima enquanto brilha,
é chama rubra e intensa em densa rama.

É mar bravio que ousado invade a ilha
e após o tempo-quente se derrama
nas verdes praias do seu verde-ervilha
aberto aos verde-claros de suas chamas.

Você, nos turbilhões de sua voragem
não se intimida, nem pede passagem
quando desfralda a lança de guerreira,

mas torna ao verde-ervilha co’a doçura
e o doce viço da mulher madura
quando no amor se inflama e abrasa inteira.


O pôr do Sol em dois momentos
José Geraldo Pires de Mello (Jota)

Poente

Luz vacilante, luz mortiça e fria,
Pobres cintilações do Sol poente,
Que em sua trajetória decadente
Se esvai, envolto em sombras e agonia...

Soam mensagens vagas... Certamente
Essas vozes distantes, desoladas,
Companheiras de velhas caminhadas,
Povoam meu passado e meu presente...

A luz declina... Estrelas apagadas...
A névoa espessa me atormenta, e acena
Co’a imagem de esperanças malogradas...
amanhã há de ser um outro dia...
Sinto um vazio... A noite é quase plena...
Desconsolo... Incerteza... Nostalgia...

 

Plenilúnio de Abril

A tarde chega ao fim... O Sol, cansado
De luzir, se despede... No poente,
a luz recua aos poucos... Lentamente,
Surge a treva no céu denso e nublado...

Por tudo vibra a paz terna e silente
Que esse austero crepúsculo irradia...
Numa tristeza mórbida e sombria,
Um sino etéreo bate, gravemente...

Anda por tudo uma melancolia,
Uma tristeza mórbida e dolente,
E aos compassos de um réquiem, morre o dia...

As árvores imóveis... O ar parado...
A Lua Cheia surge no Oriente
E estende sobre a noite o seu reinado...


Círculo vicioso
Terezy Fleuri de Godoi

Mais uma vez, o coração partido,
Procuro em vão desvencilhar-lhe. Qual!
É este amor, que foi - e que tem sido -
Meu bem eterno, e meu eterno mal.

Dói-me a cabeça, a procurar saída
Para a tristeza que corrói minh’alma,
Mas nada vejo, só a eterna lida,
A eterna busca de consolo e calma.

Entre o juízo e o desvario vivo,
Minha fraqueza a toda hora testo,
Mas nada livra o coração cativo

Desta luta insana, que jamais cessa,
Pois a uma só palavra, a um só gesto,
Caio em seus braços - e tudo recomeça...


Rio Amazonas
Joséllia Costandrade

São mistérios desde as andinas cordilheiras,
quando um modesto curso d’água vai brotando,
entre abrolhos adentra as selvas brasileiras,
- caudalosa torrente -, força avolumando-se.

É o “rio-mar”, que Orellana , em visão delirante,
foi povoando de fantásticas imagens,
multiplicando as lendas na terra distante
do Eldorado - com invulgares personagens.

Ressoa o rio entre a floresta deslumbrante,
rendilhada de verde, a vida palpitante,
desmesurado esplendor de força e de beleza.

Tudo é fascinação na vida portentosa
do rio Amazonas, a bênção dadivosa
nos ciclos naturais, sábios, da natureza.

Prêmio Concurso Cantinho do Poeta 2000
Londres, fevereiro de 2001



Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
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