CRÔNICAS

Escrever, cozinhar e fazer amor
Gracia Cantanhede

Ao som da música de Tom Jobim reunimo-nos à mesa de refeições. Não sei se por efeito do vinho, ou se por mérito de fato, choveram elogios. A amiga revelou-me, então, sua inveja pela minha disposição em fazer da culinária meu passatempo favorito. Ela gostaria de ter esse dom. O assunto a fascina. Acha que é mágico isto de preparar o prazer, mas não sabe cozinhar. Confessa-me que talvez, por isso, escreve.

Lembrei-me, por acaso, de ter dito certa vez que escrevo como quem cozinha: pensando no possível deleite dos que irão saborear minhas palavras. - Que bom se alguém pudesse ler meu texto como quem come um prato saboroso.

E os poetas parecem reconhecer que existe tal semelhança quando, à maneira de Marina Colassanti, “rasgam couves na sopa e transformam enciclopédias em jantar”, ou mesmo Adélia Prado, refletindo aquilo que muitos tomariam por com-panheirismo, mas é mais, muito mais que isso:

“Há mulheres que dizem: meu marido se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente, sozinhos, de vez em quando os cotovelos se esbarram. O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva”.

Dona Adélia sensual, erótica, sim senhores! Pura lição de amor. Amar também pode ser experimentar temperos, decidir o gosto das coisas, transformar folhas e caules em delícias. É, sobretudo, criar, à maneira dos pintores que misturam cores e dão-lhe novas nuances. É fazer poemas com polpas de frutos, inventar, tentar, embora, às vezes, aconteça o que chamamos de errar a mão - algo que se diz quando o sal ou a pimenta passam dos limites. Pode até doer em nós quando nada dá certo.

Não era bem assim que queríamos. Novas tentativas. Na vida, as coisas podem ser assim também. Como a folha em branco a nos desafiar. Como o papel que retiramos da máquina, ou o texto que não aprovamos, as palavras cortadas, substituí-das, desprezadas. É preciso ter pa-ciência. Repetir a mesma receita não é o objetivo dos que realizam essa tarefa por prazer. Há que se atentar para a novidade, a descoberta. Tudo que é bom exige tempo no seu preparo.

Nada de correrias. Saborear, então, exige vagareza. Comer rápido? Para que? O prazer é preguiçoso. Esticar, alongar a satisfação é um sábio lidar com a felicidade. Talvez a palavra chave seja concentração. Fala-se que para viver um grande amor é preciso muito concentração.
Hum!!! A lembrança de um jantar prazeroso sugere a idéia de mesa e cama. Comer se usa para descrever o que acontece na cama, já disse o poeta: “Comer é fazer amor”.

Há quem diga, ainda, que o bom escritor, à semelhança dos amantes e dos cozinheiros, também oferece suas palavras como objeto de prazer. Sem obrigações, sem monotonia, sem nada morno, mas algo que atiça os sentidos e dá água na boca. Tudo fluindo. Como cortar tomates com lâminas afiadas.

Por tantos motivos assim, Laura Esquivel inaugurou um novo gênero literário: a cozinha-ficção. Em Como Água para Chocolate misturam-se receitas, amores, remédios caseiros, mas tudo girando em torno da cozinha - espaço e função -, onde se celebra o triunfo da alegria e da vida sobre a tristeza e a morte.

Antes disso, porém, o nosso poetinha ensinava que conta ponto saber fazer comidas para depois do amor - ovos mexidos, camarões, sopas, molhos, stroganoffs.

Ser bom conhecedor da culinária é importante para os que querem viver um grande amor.
Homenagear a vida com um brindar de vinho seco escorrendo nos corpos molhados de suor dos amantes é cerimônia de entrada no paraíso, verso escrito no cardápio das emoções. E, se falo assim, não estou inovando. Nada disso. Octávio Paz diz que toda poesia é erótica.

Penso que os temperos da vida são os mesmos ingredientes que procuram os escritores e os cozinheiros: excitantes, porque deles depende a nossa redenção e a nossa glória.
Para mim, mesa posta é altar de consagração.

Depois, ora, depois! Bom mesmo é desfrutar dos carinhos do amado numa rede. E, se quiserem saber, faço questão da rede.


O dia em que Walter Lima tremeu
José Carlos Camapum Barroso

O jornalista Walter Lima é daqueles repórteres policiais que qualquer editor gostaria de ter em sua equipe. Bom profissional, espírito investigativo de dar inveja, ótimas fontes no meio policial e, acima de tudo, coragem para acompanhar ações policiais e estômago para visitar cenas de crime e salas do Instituto Médico Legal.

Walter chegava sempre entusiasmado à redação do Jornal de Brasília, com as notícias exclusivas que obtinha de suas fontes. Mas, um certo dia, a exaltação foi ainda maior. Tinha um grande furo! A Polícia Civil de Brasília iria até Curitiba buscar o garoto Pedrinho, que havia sido seqüestrado no berçário do Hospital Santa Luzia, em Brasília. A equipe de policiais embarcaria no fim da tarde do dia seguinte para a capital do Paraná.

O repórter foi chamado à sala do editor-chefe, Carlos Alberto Sáfadi. Recebeu cumprimentos, elogios e o entu-siasmo que sempre marcou a carreira do “velho Sáfadi”.
- Walter, garoto, você é demais! O jornal já decidiu: você embarca amanhã com os poli-ciais. No mesmo vôo! Na ida, entrevista o delegado; na volta, vem acompanhando o menino, suas reações, seu comportamento etc. E ainda pode ouvir a versão da provável seqüestradora. É demais! Maravilha, meu filho!

- “Seu” Sáfadi - ponderou Walter Lima. Sabe... eu estive pensando... acho melhor eu ir de ônibus... passagem de avião tá muito caro!

- Ficou louco, rapaz! - reagiu o experiente editor. Aonde já se viu! Ir de ônibus... Quando você chegar em Curitiba a polícia já voltou. O concorrente estará entrevistando o delegado e a provável seqüestradora no Aeroporto de Brasília. E, no fim das contas, quem vai pagar a passagem de avião é o jornal e não o repórter!

- Pensando bem - admitiu Walter Lima -, o senhor tem lá suas razões. Mas eu tive uma idéia melhor: que tal se eu viajar no meu carro? Um Fuscão 1.500, possante que não tem igual!

- Tenha dó, Walter Lima! - o “velho Sáfadi” começou a ficar irritado. Você vai dirigir horas a fio para depois acompanhar a ação da polícia numa cidade grande, num trânsito desconhecido? E, depois, os policiais voltam de avião e você de carro, dirigindo, fazendo turismo pelas estradas... É brincadeira, né? Não tem mais o que discutir, você vai de avião!

- Sabe, “seu” Sáfadi, a questão não é bem essa, não.

- Se não é “bem essa”, então qual é o problema, Walter?

- Bem... o senhor sabe... o avião lá naquelas alturas... pra lhe dizer a verdade: eu morro de medo de viajar de avião! Não tenho coragem mesmo! Prefiro enfrentar um badernaço da Polícia Civil com a Polícia Militar, em Brasília, do que viajar de avião pra qualquer lugar do planeta. Essa que é a história.

- Ah, meu filho! Com todo o respeito... eu adoro você. Tenho a maior consideração pela sua pessoa. Agora, com medo ou sem medo, você vai viajar é de avião! E ponto final.
Walter Lima viajou de avião. O garoto encontrado em Curitiba não era o Pedrinho, seqüestrado em Brasília. O ex-repórter policial conta a história e dá gargalhadas (sonoras, diga-se de passagem). Acha que a experiência valeu a pena e garante: não teve medo, não. Foi assim, digamos, apenas um... receio! Hoje, cruza o Brasil de avião. Vive nos ares, ou no ar, quando apresenta seu belo programa na Rádio Nacional.

Quando dá as costas, seus “amigos” - jornalistas, claro - comentam: pode até ter sido receio... Mas que tremeu, tremeu!



Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
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