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  REPORTAGENS

Crônica de um fracasso inicial
Ray Cunha
Editor de Brasília Literária

William Faulkner disse à dupla de entrevistadores da The Paris Review que o melhor emprego que já teve foi o de gerente de um bordel. Dava-lhe liberdade econômica, deixando-o livre do medo da fome e de não ter onde dormir. Um bordel é quieto de manhã, o turno de trabalho preferido dos escritores; e à noite, se gostar de vida social, ele a terá. Dessa forma, um prostíbulo pode proporcionar segurança, solidão e diversão.

Um escritor de primeira categoria não precisa de nada disso, é claro. Escreverá na prisão, na sargeta ou no Waldorf Astoria. Como é de primeira classe, o ambiente não piorará, nem melhorará seu texto. Mas, de certa forma, dirigir um bordel representa o lugar ideal para o escritor, pois se a segurança financeira não influi no artista, proporciona tranqüilidade ao homem. E tem a questão do silêncio pela manhã.

Inúmeros escritores foram artistas da fome na juventude, como o famélico personagem de Knut Hamsun. Viciados, fazem quase qualquer coisa para alimentar o vício, pois todo escritor classe A sabe que se não parir as personagens que o atormentam, morrerá prematuramente; muitas vezes, louco. Então escrevem.

Escritores de primeira categoria só sabem escrever. Se nascem ricos, tanto melhor, do contrário penam durante muito tempo, realizando todo tipo de trabalho para não morrer de fome. Gabriel García Márquez, o gigante de Cem Anos de Solidão, chegou a pedir esmola em Paris, onde outro monstro, Ernest Hemingway, matou pombos para comer. Depois de O Sol Também se Levanta, Papa não precisou mais atacar pombos para saciar a fome.

Para muitos escritores classe A, a briga inicial foi manter o estômago aquecido. Outro tipo de tormento são as dívidas, pequenas, mas impagáveis, que artistas da fome são obrigados a contrair. A angustiante falta crônica de dinheiro, a eterna corrida atrás de grana, os constantes pedidos de pequenos empréstimos aos amigos, as roupas puídas, os sapatos furados, são outras humilhações pelas quais passam os viciados em criação literária. Certa vez, convidado a um encontro num café com o diretor de uma revista na qual deveria assumir como editor, Gabriel García Márquez chegou primeiro e saiu depois, para que o diretor não visse que o solado de um dos sapatos de Gabo estava solto, devido a absoluta falta de dinheiro para mandar consertá-lo.
Paul Auster passou também pela falta de dinheiro. Auster tem hoje 54 anos e vive no Brooklin, Nova York. Seu último livro, o romance Tim-buktu, está nas prateleiras. Mas é de seu penúltimo livro, Da mão para a boca - Crônica de um fracasso inicial (Companhia das Letras, São Paulo, 1997, 396 páginas, R$ 28), que quero falar.

Da mão para a boca reúne 103 páginas de memórias; 49 páginas com três peças teatrais; nove páginas sobre um jogo de cartas que Auster inventou para ver se ganhava algum dinheiro, mas não ganhou nenhum; e o policial A estratégia do sacrifício, com 205 páginas - algo na linha e tão bom quanto Dashiell Hammett e Raymond Chandler -, que Auster escreveu na tentativa de ganhar algum. Ganhou. Em princípio, pouco. Mas o suficiente para sentir o batismo de fogo, como diria o poeta amapaense Isnard Lima Filho.

Auster não é Faulk-ner, nem García Márquez. Num momento em que Faulkner não dava mais conta de sustentar a família com os livros que havia publicado, escreveu Santuário, um extraordinário romance de gangs-ter que encheu seus bolsos. García Márquez já havia publicado meia dúzia de livros e devia a todo mundo quando escreveu Cem Anos de Solidão, que começou a vender como pão francês. Mas para o artista da fome ter um livro aceito por uma editora representa o mesmo que, para o alcoólatra, uma linha de crédito num botequim, sem fiador, nem cheque pré-datado, nem limite. Um acontecimento único.

Auster ficou conhecido com Leviatã (1992). Escreveu depois Mr. Ver-tigo (1994) e foi o roteirista de Cortina de fumaça, Sem fôlego e O mistério de Lulu, que também dirigiu. Da mão para a boca narra as peripécias do artista quando jovem. Não se trata bem de um artista da fome. Os americanos têm sempre mais poder de fogo, ou melhor, de grana. Mas quando um artista não nasce numa família de artistas, ou numa família pobre, ou em berço de ouro, e tem o azar de nascer na classe média, sofrerá como o diabo. É que não existem tantas pessoas obtusas como na classe média, onde artista é sinônimo de doido.

Mas Auster não deu pistas à família. Apenas alimentava as baterias da criação e ia comendo o que lhe era servido à mesa, sem reclamar. Fez todo tipo de tarefa para agüentar-se, enquanto imergia no seu bordel particular, para trabalhar na Estratégia do sacrifício.

Da mão para a boca é o dia-a-dia de um candidato a escritor. Os iluminados não estão preocupados em obter cartei-rinha de escritor, nem com subvenções oficiais, nem em puxar saco de ninguém. Sabem que nada disso é capaz de aumentar seu talento. Sobrevivem aceitando quase qualquer serviço que lhes apareça. Não pedem muito, nem exigem coisa alguma que represente luxo. Só querem ter seu bordel particular, pois sabem que sem poder escrever serão como alcoólatras sem cerveja. Sem nem mesmo cachaça da mais ordinária.

Neste Da mão para a boca, Auster mostra com precisão o drama de quem nasce com o dom de criar, pois, para criar, é preciso sobreviver. A menos que se escreva algo como Cem anos de solidão. Aí, dá até para viver em Madri.


Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
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