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CASSIANO NUNES
Uma botica para a alma
Maurício Melo Júnior
Escritor e jornalista
Minha memória é antiga. Remonta há séculos.
Tem sentimento de fados, cheiro de mar, gosto fascinantemente
amargo de tamarindo. Sobreviveu aos mons-tros abissais todos
do tempo e compartilhou com Mestre João o segredo de
se chegar ao Brasil pelo porto seguro de Brasília.
Nordestinamente portuguesa, se farta nos brebôtes holandeses.
Senhora múltipla de todas as línguas brasi-leiras.
Tem poesia na alma, mas uma preguiça danada de compor
versos, embora pressinta sempre os poemas que se compõem
no cotidiano.
É assim minha memória. Anarquicamente brasileira.
Cons-truída de lembranças e amnésias.
E por isso não consegue precisar o instante em que
conheci o poeta Cassiano Nunes Botica. Mas no seu vagar, chega
a determinar pistas mais ou menos precisas.
Dia desses reviu o caminhar frágil de um senhor provecto
pelas calçadas irregulares da Avenida W3. O homem cobria
com uma boina a cabeça aberta para a vida e olhava
o tempo com a calma de quem nina uma criança. Eu o
conheço, pensou minha memória. É poeta,
concluiu. Mas de onde, de quando o conheço, se martiri-zou.
E isso tem alguma impor-tância? Melhor é saber
que Cassiano Nunes Botica não é gente de se
lembrar, é pessoa mesmo prá se ouvir e aprender,
gente daquelas em que o reencontro vem com sabor de novidade,
de renovação do momento. E como bem me lembra
a memória, já mesmo encontrei Cassiano em instantes
de alegria e de tristeza. O incrível é que em
seu olhar sempre está aceso o brilho profundo da esperança.
Taí seu poema vivo.
Cassiano é um homem geográ-fico, está
sempre a falar de lugares. Diz de Nova York com a mesma emoção
de quando fala das ruas humildes de sua infância. Com
a São Paulo dos anos 40 tem a intimidade de velho companheiro.
Ama o Penedo secular com a ânsia de quem se confronta
com o objeto de todos os desejos. Conta dos recantos de São
Vicente como ancião a quem Tupã deu a graça
de ser ouvido pela aldeia geral do universo. E ninguém
consegue abrigar tão amplamente no peito Brasília
quanto ele. No entanto se intimida quando se vê obrigado
a falar dos salões requintados por onde passou. Dia
desses o vi titubear diante do desafio de ter que confirmar
um encontro solene com o primeiro-ministro alemão.
É que o homem que no dizer de Oswald de Andrade já
falou no Sindicato dos Padeiros e na Sorbonne
prefere dialogar com os miúdos. É o jeito Quintana
que também doma um tanto da alma de Cassiano.
Certa feita escreveu em um jornal que vivia numa casa-biblioteca
e que dispensaria a primeira em favor da segunda. O homem
que fez e faz tantos amigos, que dividiu espaços com
Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Drummond e tantos outros
literatos não poderia querer lugar mais seu que não
uma biblioteca, a companhia dos livros. Ali os amigos silenciosos
conver-sam de igual para igual, sem a inconveniência
das testemunhas. E dali Cassiano vai lapidando o diamante
de seus versos. Não busca fama nem dinheiro, quer somente
o supremo direito de bem se expressar.
Certa feita, durante toda uma manhã passeamos pelas
águas do baixo São Francisco. Durante toda a
manhã um suposto literato insistia em chamar Cassiano
Nunes de Cassiano Ricardo. Os dois poetas tinham em comum
o amor pelo Oeste do Brasil, é certo. A partir daí
as semelhanças iam minguan-do, mas o nosso literato
não se deixava abalar. Casssiano, o Nunes, também
não. Só deixou escapar um breve comentário
depois de receber um volume de poesia dedicado ao colega
Cassiano Ricardo. É, o homem quer mesmo
me ver morto- disse, com um breve sorriso nos lábios
e seguiu anônimo.
Mas nem sempre é possível se abrigar no manto
modesto do anonimato.
Há pouco uma mulher encon-trou no lixão da Estrutural
um exemplar da Revista da UnB. Ali estava uma longa entrevista
onde Cassiano dizia do prazer e da dor de ser poeta. Suas
palavras encantaram tanto a modesta catadora de lixo que esta
também se fez poeta. E ainda há quem afirme
que nossa gente não gosta de literatura, o que é
bem mais fácil e cômodo que combater o analfabe-tismo.
Enfim, toda esta arenga que a memória pôde agora
resgatar, somente quer dizer que Cassiano foi feito para encantar
gregos e troianos.
Cassiano Nunes Botica é isso, um homem que constrói
pelo cotidiano a fora sua geografia sentimental. É
uma botica eterna-mente aberta para almas humildes e abastadas.
Uma obra de quem abriga muita humanidade no peito.
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