Voltar
  REPORTAGENS

LER OU NÃO LER, EIS A QUESTÃO
A tragédia do livro no império brasileiro
Ray Cunha
Editor de Brasília Literária


Um dos produtos estratégicos em qualquer nação de elite honesta, o livro, é tratado com desprezo no Brasil. Um exemplo: a Biblioteca da Universidade de Brasília, uma das mais importantes do país, é um amontoado de volumes bolorentos e sobrevive da caridade alheia.

Com quase 6 mil municípios, há, no Brasil, cerca de 1.200 livrarias - segundo levantamento da Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro. Conforme o Banco Nacional de desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apenas 600 municípios contam com livrarias. De acordo com a Unesco, é desejável pelo menos uma livraria para cada 10 mil habitantes. Como o Brasil tem mais de 170 milhões de habitantes, necessitamos, segundo a Unesco, de 17 mil livrarias. Esta é uma das tragédias brasileira.

Além do mais, muitos livreiros agem mais como cartomantes do que como vendedores de livros. Anunciam livros em impressos distribuídos na rua. Livro, no Brasil, é produto de luxo, e gente que luxa anda de automóvel - de vidro fumê. Outro dia entrei em uma livraria, quero dizer, um bazar, e fui cercado por meia dúzia de jovens candidatas a modelo, igual como acontece nas lojas de roupas na Feira do Guará. O que eu queria era conhecer a loja, onde ainda não entrara. Sob a surpresa do assalto, pensei rapidamente e me ocorreu meu escritor predileto. Perguntei o que havia de Ernest Hemingway. Uma delas, a mais bonitinha, me perguntou para que série do ensino fundamental era o livro. Expliquei-lhe que Hemingway não é autor de livro escolar, mas autor de histórias violentas e condimentadas com palavrões cabeludos e barris de álcool. Ela me convidou para olharmos a estante de escritores brasileiros. Ia informá-la de que o Velhão (como chamo Papa) é americano, mas desisti de segui-la.

Entretanto, grave é que os políticos estão comprometidos até o pescoço com o capital estrangeiro e com seu próprio bolso. Nosso país é a casa da mãe Joana. Durante os sete anos de mando do imperador Fernando Henrique Cardoso, nosso rico país caíu nas mãos do capital estrangeiro. Isso, mais a rouba-lheira à luz do dia, leva-nos, a galope, para um destino semelhante ao da Argentina, onde metade da população está catando lixo para comer.

Livro não é apenas um produto comercial. É, também, um produto cultural. As megalivra-rias multinacionais, que dão megadescontos, acabam com o pequeno livreiro do subúrbio, que não pode dar desconto. Aquele livreiro, agente econômico e agente cultural em um ponto carente da cidade, é obrigado a fechar as portas com tal concorrência. E aí, cada vez mais, o abismo social se arreganha.

Em países como França, Espanha, Grécia, Portugal, Japão, Coréia e a vizinha Argentina, os livros são tabelados. Os editores e importadores são obrigados, por lei, a fixar preços em catálogo. Descontos somente até 5%. Na Grã-Bretanha, o preço único foi abolido em 1995. Desde então gigantes americanas começaram a tomar conta do mercado inglês, varrendo, do mapa, os pequenos livreiros.

Em Brasília, ocorre um comércio curioso. A Ordem dos Advogados local, miliardá-ria, possue, apesar de ser apenas um conselho de classe, duas livrarias, onde vende livros para advogados e estudantes de Direito com descontos que estão quebrando os pequenos vendedores de livros jurídicos da cidade.

Além da fixação do preço do livro, medidas como o cheque-livro são eficazes para que o setor livreiro possa funcionar. No Brasil, a grande política é a paternalista. Fazendo o papel de salvador da pátria, políticos “dão” até pão e circo para a população. Poderiam “dar”, também, o cheque-livro, um boleto de certo valor, para que estudantes pobres habituem-se a entrar numa livraria e a comprar livros.

Apesar da sem-vergonhice vista no império brasileiro, já se pode observar alguns avanços. Estados pobres, como Amazonas, Tocantins e Ceará, entram como R$ 500 mil para suas feiras do livro. No Rio Grande do Sul, há inclusive uma lei, a 11.670, de 19 de setembro de 2001, assinada pelo governador Olívio Dutra (PT), que estabelece a política estadual do livro, disciplinando o setor. O senador José Sarney (PMDB-AP), ele mesmo escritor, apresentou, em 2001, um projeto de política nacional do livro, no qual prevê, por exemplo, dinheiro em caixa para a compra de livros diretamente pelas bibliotecas públicas.

O medo dos políticos paternalistas é que o povo, ampliando sua cidadania por meio da leitura, dispense o pão e circo e passe a exigir escolas de verdade, derrubando a máscara maquiavélica do ensino público brasileiro, de trágico cinismo.


Brasília, Distrito Federal, Brasil. Editor: Ray Cunha. Telefone 9618-3160
Site desenvolvido por Solute Informática e Comunicação