| Mulheres
de Minas
Gracia Cantanhede
Escritora
Encontro, por acaso, uma amiga. Há anos que a vida
nos levou para lados diferentes, bem diferentes. E nesses
muitos anos nos vimos apenas uma vez, rapidamente. Mas aqui
estamos, cara a cara. Cada uma olha de cima abaixo para a
outra, tentando conferir as marcas do tempo. Logo, num movimento
de bom humor, resolvemos dizer que, afinal de contas, estamos
muito bem.
Lembramos as amigas de 15 a 20 anos atrás. Uma está
no exterior, outra virou beata religiosa, outra muito rica.
Há outras que a gente encontra, às vezes, num
aeroporto, num lugar de veraneio ou numa esquina de rua.
- E Marina?
Respondo que não tive mais notícias dela. Pobre
Marina... Tão aventureira! Era linda, lá isso
era!
Nenhuma de nós sabe como estará aquela beleza
de cabelos muito negros e olhos bem verdes – a bela
Marina. E sua evocação nos comove e quase nos
surpreende, como se, de súbito, ela estivesse entre
nós, a jogar a farta cabeleira para lá e para
cá.
Poderia ter sido uma outra mulher, não tivesse ela
a mãe neurótica que tinha. Foi criada para ser
rainha, para estar acima do bem e do mal, e, então,
deu no que deu: apaixonou-se por um desses rapazes que se
dizem milionários - coisa de cinema.
A mãe incentivando o casamen-to com o falso industrial,
um mau-caráter que iria infernizar a vida da pobre
menina.
Por ele, foram abandonados os sonhos de continuar os estudos,
os planos de fazer belas artes...
Como se fosse hoje, revejo as cenas de nossa formatura na
Escola Normal. Éramos mais de 30 professorinhas cheias
de ideal (disse isso no meu discurso de despedida).
A vida era vista através de lentes coloridas. Sonhávamos
com Chico Buarque e invejávamos Leila Diniz.
Marina queria abraçar o mundo, mas foi a primeira a
chegar ao altar, no casamento mais comentado do ano.
O encanto durou pouco e o destino foi cruel com ela.
Dizem que ficou só e virou dona de bordel.
Talvez eu não a veja nunca mais, por isso ela vai permane-cer
na minha lembrança com toda aquela aura de santa, ou
vítima, como o foi Ângela Diniz, uma burguesa
mimada, que virou símbolo de liberdade, mas que, no
fundo, era uma criança assustada.
Ah! as mulheres de Minas; como são misteriosas...
Haverá sempre uma Dona Beja em cada mineira, uma feiticeira
e uma filha-de-Maria, mas a mulher de Minas, será,
sempre, única, ou não será mais de Minas.
Abracei longamente minha amiga, pensando nos desen-contros
de nossas vidas e nas histórias que ficarão,
para sempre, perdidas nas serras de Minas.
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